História

A FESTA DOS TABULEIROS
COR, LUZ, POESIA, TRADIÇÃO

Nesta cidade portuguesa que foi sede da Ordem dos Templários e da Ordem de Cristo, repleta de valiosos monumentos e para quem a Natureza, nos verdes com que a dotou e no rio ainda bonito que a atravessa, foi generosa, nesta Tomar de onde a Cruz de Cristo partiu para os sete mares nas caravelas das descobertas, vive, na sua tradição popular, uma Festa, que, pelas suas características, é única em Portugal e no mundo: a Festa dos Tabuleiros ou do Divino Espírito Santo.

Não podemos, no espaço dum artigo, fazer a sua descrição e a sua história, minuciosamente. Mas tentaremos dar os tópicos principais.

Sobre a sua origem (comprovada) remontamos ao tempo da Festa ou Culto do Império, instituída em Alenquer pela Rainha Santa Isabel em singular devoção ao Espírito Santo. Ao redor… de 700 anos passados.

Nos Impérios saía a Procissão em Domingo de Páscoa, como nos conta o Bispo do Porto, em obra publicada em 1680, e nos Domingos seguintes até ao Pentecostes, dia da Festa Grande, que terminava com a bênção do «pão e carne, que ao outro dia se há-de comer em um vodo, e que tudo se ordenou por instrução da «Sancta Isabel». Havia ainda, no Império, para além de outras cerimónias, a coroação do Imperador e de dois Reis e, para maior alegria do povo, adaptaram-lhe parte das Mouriscas.

Breve se espalhou pelo país a Festa do Império e o etnólogo Luís Chaves cita variadíssimas localidades, mas aponta como principais Tomar, Açores e Madeira.

Na Festa de Tomar, o seu princípio é, ainda, a saída das coroas no Domingo de Páscoa, em Procissão, acompanhadas do Pendão do Espírito Santo, saídas que se repetem na Pascoela e em vários domingos até à Festa Grande. As coroas levadas por «mordomos» (como há pelo menos 100 anos se chama aos que outrora foram imperador e Reis) dirigem-se à Igreja onde são depositadas na banqueta do Altar representando assim uma oferta a Deus. O final da Festa é também um Bodo de pão e carne, bentos (a que há anos se juntos vinho), como no Império.

Tudo isto, e algo mais, são elos que ligam a Festa dos Tabuleiros ao Império da Rainha Santa.

Quem conhece a festa dos Tabuleiros, quem a viu, tem uma sensação nítida que o religioso se uniu ao profano, e que há, nela, uma presença de ancestrais destas das colheitas, na profusão de papoilas, malmequeres, outras flores, pão e espigas de trigo nos tabuleiros que vão à cabeça das raparigas vestidas de branco, como vestais. Frei Manoel da Esperança (1666) diz-nos: – O cristianismo respeitando hábitos, práticas várias, costumes, inserindo-se, dando um sentido religioso à vida, tomou muitos costumes, respeitou expressões de alma e «baptizando-as», isto é, dando-lhe significado cristão, continuou-as promovendo.

Assim sucedeu com as Mouriscas e assim podia ter sucedido com a adopção local de qualquer festa de colheitas à Deusa Ceres que porventura se tenha realizado na romana Sellium, antepassada de Tomar. Mas não temos quaisquer documentos iconográficos ou outros, que sustentem a hipótese tanto mais que se meteu de permeio a dominação árabe. Esta, deixou as mouriscas ao Império – e o seu sabor «profano»…

No correr dos tempos, no andar dos séculos, muita coisa se modificou na Festa dos Tabuleiros. As mouriscas perderam-se e, actualmente, nem a coroação dos mordomos (Imperador e dois Reis) já tem lugar – o que ainda em tempos dos nossos avós se fazia na Festa de Tomar e, há menos tempo, nas freguesias rurais que também tinham as suas Festas.

Mas a modificação mais importante que sofreu, e que a tornou única e mais bela, mais cheia de policromia, foi a do Tabuleiro. Crê-se – e as razões são fortes – que a forma e montagem do Tabuleiro actual teve lugar no Séc XVI, graças aos mestres e artífices que trabalharam nos monumentos manuelinos de Tomar. Na realidade, ao olharmos com cuidado para os Tabuleiros – «altos cargos», como lhe chamaram há um século – vê-se que se enquadra neles um certo barroquismo manuelino, como o disse e escreveu esse estudioso da Festa que foi o saudoso e culto João dos Santos Simões e, ainda, o Padre José Guilherme, outro profundo conhecedor da Festa. Lembremo-nos que na bonita Festa do Dívino Espírito Santo nos Açores, o pão é levado em açafates, provavelmente como o era em Tomar antes do séc. XVI, pois aquele arquipélago foi povoado por Gonçalo Velho em 1439, antes, portanto, do Séc XVI. E diga-se «… foram das nossas terras para os Açores grande cópia de tomarenses acompanhando Gonçalo Velho, os quais levaram consigo saudades da terra que deixavam e a recordação das suas tradições. (Amorim Rosa, autor da História de Tomar).

O Tabuleiro de Tomar deve ter aproximadamente a altura da rapariga que o transporta. E devem ter, todos, 30 pães de 500 grs. (actualmente, para aliviar o peso, pães de 400 grs., muito embora a velha promessa fosse de 15 Kgs.).

É armado enfiando canas num cesto de verga, com 40 cm. de boca (depois do tabuleiros ornamentado este cesto é coberto com uma toalha arrendada). Se a rapariga que o conduz é baixa, 6 canas com 5 pães (espetadas pelo seu maior comprimento), se é alta, 5 canas com 6 pães cada. As canas são rematadas ao alto por uma coroa encimada pela pomba do Espírito Santo ou pela Cruz de Cristo.

A ornamentação faz-se ao gosto das raparigas, deixando o moreno do pão à vista (este pão é de formato especial: alongado e roliço, com uma pequena cintura ao meio). O intervalo entre as filas de pães é cheio de flores de papel e os que levam papoilas e malmequeres, talvez mais simbólicos, levam também espigas de trigo. Mas, claro que não podem todos os tabuleiros decorar-se com as mesmas flores. Lá se ia a policromia do Cortejo…

As coroas dos tabuleiros podem ser pintadas de ouro ou prata, ou enfeitadas com tiras de papel recortado em franja.

Finalizando:

Já está o Cortejo na rua. À frente o velho Pendão vermelho do Espírito Santo, de outros tempos, e as três velhas Coroas, que foram do Imperador e Reis e hoje são dos mordomos, depois os Pendões e Coroas de todas as freguesias. E surge então, como um rio de cor, de muitas cores, a magia dos Tabuleiros ao alto das 400 raparigas vestidas de branco (hoje com uma fita a tiracolo e outra à cintura, de cor) levando ao lado os rapazes seus ajudantes, eles de camisa branca de mangas arregaçadas, calças escuras, barrete ao ombro.

Um rio colorido que avança vagarosamente em procissão. E a nossa alma encanta-se, pela poesia, pela herança.

E a fechar o cortejo, bem enfeitados e com os seus anjinhos, os carros de pão, da carne e do vinho, os bois do sacrifício (simbólico), cornos dourados e fitas pendentes, do «vodo» que ao outro dia se há-de comer. «Pêza» é o nome tradicional do quinhão a distribuir por cada habitante. Antigamente, por toda a população, agora, só aos mais necessitados. Tomar era muitíssimo menos populosa e 7 bois dos bons, custavam em 1887 a quantia de 282$50 o que, nos dias em que vivemos, não dá para uma «Pêza».

E a Festa termina. Mas ela ficará por muito tempo nos nossos olhos cativados pela policromia dos Tabuleiros.

Festa do Dívino Espírito Santo…Esoterismo?!…Sonho, poesia, encanto!…

Uma Festa bonita!

FERNANDO ARAÚJO FERREIRA

Excerto do livro “Tomar – Perspectivas”, Edição da Festa dos Tabuleiros 1991

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